Março 23, 2021

O poder curador da sua mente

A Hipnose Clínica está a entrar na medicina  convencional e está a ajudar em tudo, desde ansiedade a dor crónica. Está na hora de a levar a sério, pede Helen Thomson.

 

“Honestamente, eu indagava-me se realmente estaria em trabalho de parto, porque certamente deveria ser mais doloroso que isto.” Esta é a Shona a descrever o parto recente da sua filha. O seu segredo? Hipnose Clínica. Durante a gravidez, ela aprendeu a como se auto hipnotizar, auto induzindo-se a um estado mental, que lhe permitiu minimizar a dor do trabalho de parto e nas suas próprias palavras, aproveitar todo o acontecimento.

A palavra hipnose pode lembrar um relógio oscilante ou um artista que leva as pessoas a acreditarem que estão nuas num palco para  divertirem uma plateia. A sua história é de feitiçaria e magia, contos do ocultismo e charlatões exploradores. Os profissionais muitas vezes não são médicos ou terapeutas, os ensaios clínicos lutam para serem financiados e ainda não existe uma autoridade de regulamentação que monitorize a prática (em alguns locais é assim mas em Inglaterra e Portugal, essas entidades existem, a LCCH international, localizada no Reino Unido – https://lcchinternational.co.uk/ e a LCCH Portugal https://www.lcchportugal.com/, fundadora da AHCP – Associação de Hipnose Clínica de Portugal https://www.ahcp.pt/ , onde pode ver a lista dos Hipnoterapeutas clínicos autorizados a exercer a prática em Portugal e que têm supervisão clínica).

Apesar dessas questões, as pessoas estão a recorrer a essa técnica para ajudar em tudo: desde trabalho de parto, afrontamentos, ansiedade a dor crónica e um crescente corpo de pesquisa está a começar a confirmar os seus benefícios. Também estamos a começar a perceber como a Hipnose realmente funciona e o que acontece no cérebro durante o estado de hipnose. Como resultado, a forma como definimos hipnose está a mudar e o seu uso na medicina convencional está a aumentar. O Uk Royal College das parteiras está a acreditar cursos de hypnobirthing e financia cursos e formações na técnica.

Alguns anestesistas já incluem a hipnose como parte do seu kit de ferramentas e ela está a ser referenciada como uma solução para a crise de dependência de opióides. A hipnose certamente não é uma pílula mágica, implica ter vontade de mudar e coragem para o fazer mas aprender o que funciona, porque funciona e como fazer isso sozinho, pode ajudar a aproveitar o poder da mente para saber lidar com algumas das batalhas mais difíceis da vida.

A hipnose tem uma longa história na medicina, em que o uso mais antigo tem o registo com a data de 1550 a.c mas o seu boom deu-se no século 18, quando o médico alemão Franz Mesmer estipulou que a influência física dos planetas sobre as pessoas, poderia ser manipulada através do uso de ímãs para causar transe e tratar doenças. Mesmer foi denunciado mais tarde como uma fraude e traficante mas a ideia de que é possível mudar o comportamento das pessoas por meio do transe hipnótico persistiu e ganhou mais credibilidade no século 19, quando o cirurgião escocês James Braid, começou a investigar que fisiologia poderia estar subjacente a esse fenómeno considerado estranho.

Hoje, a hipnose é usada para uma vasta gama de condições mas mesmo que o seu uso se tenha tornado cada vez mais comum, o seu alcance na medicina tem sido limitado e em parte, isso se deve ao facto de que poucos conseguem chegar a um consenso sobre o que é exactamente, a hipnose. Perante a reunião das opiniões de vários pesquisadores, um “transe” hipnótico pode ser descrito como um estado de atenção concentrada, concentração e absorção interna, acompanhado por uma diminuição ou perda de consciência das outras coisas ao seu redor. Provavelmente lembra-se de já o ter vivenciado, quando está tão absorvido numa actividade que pouco ou nada se apercebe do que se passa ao seu redor ou pela passagem do tempo.

Também sabemos agora que o sucesso dos ilusionistas famosos em levar as pessoas a fazerem coisas estranhas e maravilhosas no palco, está mais relacionado com a pressão dos colegas, companheiros, do que com a hipnotização (leia mais sobre o assunto na nossa tradução do artigo “Fumo e espelhos”, a ser publicado em Janeiro de 2020).

Quando se trata de como realmente hipnotizar alguém, não existe um método padrão. Uma abordagem comum, começa com pensar numa imagem tranquilizadora, antes de se imaginar num ambiente pacífico que estimula todos os seus sentidos, seguido de um procedimento de aprofundamento, acompanhado com afirmações que ajudam a alcançar o objectivo. Pode ser induzido por um Hipnoterapeuta Clínico ou pelo próprio, após ensino adequado (Leia mais sobre o assunto na nossa tradução do artigo “Como se auto hipnotizar”, a ser publicado em Fevereiro de 2020).

Como veremos, há boas razões para continuar a chamar o processo de “hipnose” mas a sua definição nebulosa e a sua história controversa, tornaram complicado descobrir o que funciona e o que não funciona. A sua classificação como terapia “complementar ao invés de convecional pelo Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido também não ajudou, diz Janeu Boissière, da Sociedade Britânica de Hipnose Clínica e Académica, porque torna virtualmente impossível a obtenção de fundos para ensaios, cursos, formações e instalação de serviços relevantes no NHS.

Apesar disso, o Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidados do reino Unido recomenda a hipnose para uma condição: Síndrome do intestino irritável (IBS) o qual causa cólicas dolorosas, inchaço, diarreia e obstipação. A causa não é conhecida e não há cura mas alguns medicamentos e mudanças alimentares podem aliviar os sintomas. E para IBS resistente ao tratamento, há esmagadoras evidências de que a hipnose pode melhorar os sintomas e qualidade de vida. “Durante a hipnose, os pacientes podem imaginar as ondas suaves do mar e imaginar que os seus intestinos estão a mover-se num regular, tranquilo e semelhante ritmo”, afirma Carla Flik, na Universidade Medical Centre Utrecht, na Holanda.

Nos E.U.A, tanto a American Psychological Association, como o National Institutes of Health promovem a hipnose como parte do tratamento padrão para a dor. Numerosos estudos demonstraram de que pode melhorar uma variedade de problemas crónicos, como dores nas costas e efeitos colaterais dos tratamentos contra o cancro – frequentemente oferecem mais alívio do que a fisioterapia e as terapias cognitivas – comportamentais, quando realizadas sem hipnose.  A hipnose pode ser tão eficaz no alívio da dor que, desde 1992, tem sido usada em muitos procedimentos cirúrgicos – incluindo biópsias, laparoscopias e cirurgia plástica – como uma alternativa à anestesia geral. A técnica é simples, afirma Aurore Marcou, do Insituto Cuirie, em paris, França. “O paciente recebe anestesia local e sedação leve. Sentamo-nos ao lado deles e orientamos para que se concentrem no seu mundo interior, na sua respiração e ajudamos a que a sua atenção se foque no seu local seguro. Nós os ajudamos a reviver experiências do passado. Todo o seu cérebro está focado nessas memórias. O principal benefício é a redução dos efeitos colaterais. “Você não se sente tão sonolento ou doente como com a anestesia geral”, afirma Marcou. Guy Montgomery, da Escola de Medicina de Icahn, em Mount Sinai, Nova York, descobriu que as mulheres que tinham feito Hipnose clínica antes da cirurgia ao cancro de mama, relatavam menos dor, ansiedade, náuseas e fadiga, após a cirurgia. E os benefícios não eram apenas físicos. A sua equipa previu que, se 90% das pessoas que precisam de fazer uma biópsia de cancro de mama nos EUA forem hipnotizadas, isso poupará ao país mais de US $ 135 milhões por ano (ou seja, cerca de 122,241,150.00 Euro por ano).

 

Cada vez mais fundo…

 Esta redução relatada nos sintomas mentais e físicos, não surpreende mulheres grávidas como Shona Flock, que frequentam as aulas de  hypnobirthing. Oficialmente, no entanto, o júri ainda não se pronunciou sobre este assunto – uma revisão de 13 estudos em 2011 concluiu que o hipnobirthing “é promissor” como uma intervenção para dores no parto, mas muitos dos ensaios foram mal projectados e não foi possível uma resposta definitiva. Um estudo de 2015 descobriu que a técnica fazia pouca diferença se as mulheres solicitavam alívio da dor durante o parto, mas reduziu significativamente os níveis relatados de medo e ansiedade.

De facto, muitos vêem como promissor o seu uso na saúde mental. Os transtornos de ansiedade são algumas das condições mais comuns e prejudiciais nos E.U.A. Este ano, na primeira análise desse tipo, Keara Valentine, da Universidade de Hartford, Connecticut, e seus colegas quantificaram o efeito da hipnose para reduzir a ansiedade, analisando todos os estudos controlados dessa intervenção. Os resultados foram impressionantes: o participante médio que recebeu hipnose mostrou mais melhora do que 84% das pessoas que não a receberam. Além disso, não houve diferença no benefício entre aqueles que usaram a auto-hipnose e aqueles que receberam hipnoterapia guiada.

Claro que a Hipnose clínica não é apenas usada para o alívio da dor ou ansiedade. É cada vez mais popular como maneira de ajudar as pessoas a aprender novos comportamentos ou deixar maus hábitos. Mas novamente, a pesquisa é confusa devido ao design inadequado do teste. Em Junho, Jamie Hartmann-Boyce, da Universidade de Oxford e seus colegas publicaram uma revisão de 14 estudos em que se analisa o uso da hipnose clínica para ajudar as pessoas a deixar de fumar e não conseguiram encontrar evidências suficientes para recomendá-la.  O problema não foi o aspecto da hipnose não ajudar, afirma Jamie, mas o facto de os testes estarem confusos. “Eles tinham muitos preconceitos, eram imprecisos ou tinham poucos participantes”, diz Hartmann-Boyce. “É uma questão tão importante que precisamos produzir ensaios maiores e melhores”.

Noutras áreas, os resultados são mais consistentes. Por exemplo, no início dos anos 90, uma meta-análise de estudos de perda de peso mostrou que a adição de hipnose à terapia comportamental cognitiva mais do que duplicou a quantidade de peso que as pessoas perdiam. Outra meta-análise realizada em 2018 teve resultados igualmente encorajadores.

Apesar desta crescente evidência do potencial da hipnose, ainda há muitas perguntas sobre como ela realmente funciona. Mas também isso está a começar a mudar.

“Acho que ninguém deveria dizer ‘sim, sabemos exatamente o que é hipnose’”, afirma Laurence Sugarman, do Rochester Institute of Technology em Nova Iorque, “mas temos algumas ideias.” Primeiro, ele diz, não devemos pensar na hipnose como algo que induz um único estado, mas como uma disciplina que influencia a capacidade do cérebro de se adaptar e aprender. “É uma habilidade que podemos usar para nos ajudar a mudar de ideias”.

Esta capacidade de adaptabilidade – também conhecida como plasticidade – permite que o cérebro modifique as suas conexões neurais e se reconecte para que possamos realizar novos comportamentos, lembrar novas informações e adaptar-se à variedade de experiências que a vida nos proporciona. Há fases em que o cérebro é mais maleável – nos primeiros anos de vida, por exemplo, ou quando vivenciamos emoções fortes. É provável que a hipnose coloque o nosso cérebro num estado que seja propício à sua remodelação, não de uma maneira específica, mas de muitas maneiras diferentes, dependendo do indivíduo e da terapia envolvida.

Por exemplo, estudos de imagem mostram que a parte de relaxamento da indução hipnótica suprime significativamente a actividade no nosso córtex frontal, a área do cérebro responsável pelo planeamento, tomada de decisões e atenção. Isso liberta o travão que normalmente se coloca noutras áreas envolvidas na filtragem e integração de informações importantes de dentro e fora do corpo, as quais usamos para criar novas memórias, ideias e comportamentos. Algo semelhante ocorre quando bebemos álcool, um momento em que pode sentir-se mais sugestionável.

Parece que enquanto estamos no estado hipnótico, podemos gerar sensações mais intensas na nossa mente. Marie-Elisabeth Faymonville, directora da clínica de dor no Hospital Universitário de Liège, na Bélgica, descobriu que as pessoas hipnotizadas e solicitadas a imaginar uma memória agradável mostram mais actividade nas áreas cerebrais responsáveis pelos movimentos e sensações do que as pessoas que imaginam o mesmo cenário sem hipnose.

“Não havia estímulo real proveniente do mundo exterior, mas aqueles que estavam sob hipnose estavam a ver como se os seus olhos estivessem abertos, com informação a entrar. Era semelhante à percepção real”, diz ela. Quanto mais fortes são essas sensações – imaginadas ou não – mais facilmente podem ser incorporadas no comportamento aprendido.

Quando se trata de controlar a dor, a hipnose parece ajudar de forma diferente. A percepção da dor é gerada pelo cérebro e sabemos que pode ser influenciada: veja o exemplo da ginasta que parte uma perna durante uma rotina e mesmo assim continua ou uma mãe que salva o seu filho de um prédio em chamas antes de se aperceber dos seus próprios ferimentos. A hipnose clínica permite-nos fazer algo semelhante.

 

No seu comprimento de onda

 Quando Faymonville hipnotizou voluntários antes de pressionar um estímulo quente ou doloroso na palmas das suas mãos, reduziu a sensação desagradável e a intensidade da dor em cerca de 50%, em comparação com os que estavam apenas a descansar e em cerca de 40% em comparação com os que foram instruídos a distrair-se com uma memória agradável.

Um exame mais detalhado do cérebro neste contexto mostra que a hipnose diminui a actividade no córtex cingulado anterior, uma região que recebe informações sobre os estímulos sensoriais e está ligada a áreas que organizam uma resposta comportamental e emocional apropriada. A actividade mais baixa nesta área pode indicar que os sinais de dor recebem menos atenção do que o normal.

Outras pesquisas sugerem que a hipnose leva as pessoas a um estado mental em que as ondas cerebrais associadas – padrões de actividade neural – são semelhantes aos observados durante a meditação profunda. Num pequeno estudo de pessoas com Esclerose Múltipla, que foram submetidas à hipnose para tratar a dor crónica, Mark Jensen, da Universidade de Washington, Seattle, e seus colegas descobriram que aprimorando as ondas cerebrais Teta, geradas durante um transe hipnótico, aumentava a potência do alívio da dor. Isso pode ocorrer porque as ondas cerebrais geradas durante o transe hipnótico ajudarem a capacidade do cérebro de aprender e de se adaptar às novas informações que está a receber durante a terapia.

Apesar deste progresso, ainda há desafios: convencer os médicos a manter a mente aberta. Segundo Montgomery, muitos estagiários perguntam: “Temos que chamá-lo de hipnose? Essa palavra pode assustar os pacientes.” A resposta curta é sim. Quando as pessoas passam pelo mesmo procedimento, seja ele denominado hipnose, relaxamento ou sugestão, funciona melhor quando chamado de hipnose. A motivação para ser hipnotizado, assim como acreditar que é uma terapia credível, também pode aumentar a probabilidade de ser eficaz. Tal como acontece com o efeito placebo, pode ser que a sua crença em que a hipnose faça a diferença seja, de fato, uma parte crítica do sucesso do tratamento (Aliás, como em todas a terapias, onde há confiança e vontade, há mais probabilidade de sucesso).

Dar à hipnose clínica uma justa oportunidade na medicina convencional pode trazer muitas recompensas. Estudos mostram que as pessoas com dor crónica podem diminuir o uso de analgésicos devido à hipnose clínica. Nos E.U.A, mais de 130 pessoas morrem todos os dias devido a sobredosagem de analgésicos viciantes, principalmente os opióides. O psicólogo David Spiegel, da Universidade de Stanford, na Califórnia, apontou no Fórum Económico Mundial do ano passado, que a hipnose não é viciante e que não mata pessoas, mas pode ter um efeito considerável sobre a dor e, portanto, vale a pena ser levada a sério.

A hipnose funciona em todos? Não (Em pessoas excessivamente controladoras e com falta de motivação, os resultados são por vezes fugazes). Mas a auto-hipnose pode experimentar gratuitamente e isso traz riscos mínimos, diz Marcou (apenas para aprender a relaxar sozinho. Caso seja para tratamento, por favor, ver a lista de Hipnoterapeutas Clínicos da AHCP, para que obtenha a ajuda adequada). Isso é o que realmente é bom na Hipnose – os resultados podem ser realmente bons, só precisa de estar realmente disposto a confiar”.

Tradutora do artigoSónia Lucas, Hipnoterapeuta Clínica pela London College of Clinical Hypnosis, membro e faz parte dos Órgãos sociais da AHCP – Associação de Hipnose Clínica de Portugal, https://www.ahcp.pt/ , onde pode ver a lista dos Hipnoterapeutas clínicos autorizados a exercer a prática em Portugal e que têm supervisão clínica

 

Artigo original:

https://www.newscientist.com/article/mg24432550-600-what-hypnosis-does-to-your-brain-and-how-it-can-improve-your-health/?fbclid=IwAR3mTEj9QZRL5ZV2rJIHrYU5o0e2kKBaGfpYR9p_DLYMSDSNqWhvB2dZto